As lésbicas podem deixar de lado as políticas de representação? Sobre o filme “Azul é a Cor Mais Quente”, de Adbellatif Kechiche

No primeiro mês da minha estadia em Paris, agora no início de novembro, fui ao cinema conferir o filme La Vie D’Adèle – Chapitres 1 et 2 (2013), que será lançado no Brasil nesta sexta-feira, dia 06 de dezembro, com o título Azul é a Cor Mais Quente. O filme, baseado no HQ de Julie Maroh (Le Bleu Est Une Couleur Chaude), foi adaptado para a telona por Abdellatif Kechiche, um prestigiado diretor libanês, que tem em seu currículo filmes como Vênus Negra (2010) e O Segredo do Grão (2007). La Vie D’Adèle conta a história de Adèle, interpretada pela bela e novata Adèle Exarchopoulus, e sua paixão tórrida (e à prImeira-vista) pela jovem de cabelos azuis Emma, papel que fica a cargo de Léa Seydoux, conhecida pelas atuações em Missão Impossível – Protocolo Fantasma (2011) e Meia-Noite em Paris (2011).

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Fui assisti-lo com bastante curiosidade e, devo dizer, uma certa desconfiança. A expectativa era por conta do belíssimo e enigmático trailer e também pelo fato de o filme, que tem 3 horas de duração e uma cena de sexo entre as duas personagens de dez minutos, ter sido o ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013.

É um filme bonito e com uma história bem contada. Apesar de ter 3 horas de duração, em nenhum momento senti que o ele estava se arrastando ou tive vontade de dar aquela olhadinha no celular pra ver quanto tempo faltava pro fim. As atrizes são excelentes, com alguns pontos altos (como a intensa cena de briga entre as duas personagens). A cena de sexo é interessante, é bonita, é excitante. O filme é inegavelmente bem-amarrado. No entanto, a história é pouco clichê, muito “amor-romântico-eterno” pro meu gosto. Mas, o que me interessa aqui não é exatamente a qualidade do filme, mas a repercussão dele entre as lésbicas, inclusive a autora do HQ no qual ele foi baseado, e emitir o meu próprio ponto de vista enquanto espectadora lésbica.

Toda vez que um filme com personagens lésbicas é lançado no cinema, sobretudo em grandes salas, as lésbicas mais preocupadas com as políticas de representação ligam suas antenas críticas e analisam a obra. Aqui na França a primeira manifestação crítica em relação ao filme de Kechiche que eu acompanhei foi a da socióloga, professora universitária e reconhecida militante queer Marie-Hélène Bourcier. Ela incia a sua crônica, Dans la Bouche D’Adèle et Bien Profond Encore, emitida pelo programa de rádio belga Pure Fm, Bang Bang, chamando a atenção para o fato de que uma palma vende no mundo inteiro e que, por isso, o filme vai angariar milhões de entradas: “…e as feministas nem se importam, não?”:

Eu digo o seguinte: é preciso realmente ir ver para crer. Um, porque a política de representação visual é incontornável para as minorias. E a verdadeira questão, mesmo que ela irrite a França é: será que um filme interpretado por lésbicas e realizado por uma mulher ou uma lésbica poderia ter sido financiado ou elogiado, ainda mais se não fosse bom? O ponto de vista lésbico faria diferença? A resposta é sim. A gente tem a prova, depois de mais de 20 anos de festivais de filmes lésbicos e em certos filmes de grande público norte-americanos.

A segunda razão, segundo Marie-Hélène, é que Kechiche acaba de lançar um verdadeiro pornô. De acordo com sua crítica, um filme com as duas mulheres se pegando, esperando o cara chegar, seria um pouco mais honesto – ao menos, nesse caso, o dispositivo é claro: é um filme para homens. No caso de Kechiche, o dispositivo-voyeur seria sua “câmera-pau” [em fr. camera-bite] ávida de planos fechados, mesmo que o lance de Kechiche não seja a buceta escancarada (muito pornovulgus), mas a meleca escorrendo do nariz e a boca escancarada de Adèle: “No dossier de imprensa, o grande diretor conta que foi vendo Exarchopoulos engolir uma torta de limão numa padaria que foi dita a famosa ‘é ela’!!!… Razão pela qual o verdadeiro título do filme, na minha opinião, é ‘Dans la bouche D’Adèle’ [Na boca de Adèle].”

Julie Maroh, autora do quadrinho que inspirou o filme (no qual a protagonista se chama Clémentine, e não Adèle), em um texto publicado em seu site, intitulado Le Bleu D’Adèle, declarou que não considera a adaptação de seu livro para o cinema uma traição, já que ela perdeu o controle sobre a sua história quando a publicou. Por outro lado, Maroh faz questão de expressar sua opinião enquanto espectadora lésbica. Para ela, o que faltou no filme, sobretudo na comprida cena de sexo, foram lésbicas:

Me parece claro que foi isso que faltou na tela: lésbicas. Eu não conheço as fontes de informação do diretor e das atrizes (que até que se prove o contrário são todas hétero, e eu não fui consultada previamente […]. Porque – com exceção de algumas passagens – o que isso me evoca: uma ostentação brutal e cirúrgica, demonstrativa e fria do sexo dito lésbico, semelhante ao pornô [se referindo ao pornô mainstream, feito para homens], e que me deixou muito desconfortável. Sobretudo quando, no meio de uma sala de cinema, todo mundo cai na gargalhada. Os heteronormativos, porque eles/elas não se identificam e acham a cena ridícula. Os homos e outras transidentidades, porque não é credível e porque eles/elas acham igualmente a cena ridícula. E, em meio aos únicos que não riram, há os eventuais caras que estão ocupados demais tendo uma ereção diante de um de seus maiores fantasmas.

Diversos sites de notícia, inclusive o Huffington Post, divulgaram um vídeo chamado “Lesbian React To Sex In ‘Blue Is The Warmes Color’”. A reportagem do Huffington Post tem como parágrafo de abertura o seguinte: “O Diretor Abdellatif Kechiche filmou os 10 minutos de sexo lésbico em ‘Blue is the Warmest Color” entre duas atrizes heterossexuais focando no que ele achava belo. Algumas espectadoras lésbicas, no entando, discordaram dele quanto à ‘beleza’ dessa cena.” Para ler a reportagem completa do Huffington Post, cliquem aqui: http://goo.gl/Hvfb9V. O vídeo, publicado no Youtube, traz lésbicas norte-americanas que ainda não assistiram ao filme de Kechiche observando a cena-de-sexo-de-dez-minutos com o intuito de mostrar suas reações. As expressões são um misto de excitação, desconforto, tédio e graça (em inglês): http://www.youtube.com/watch?v=rIjJ_VtU9PA

Algumas sátiras foram publicadas na internet. As mais engraçadas (e duras) foram feitas por um blog francês chamado Koudavbine que publicou um quadrinho intitulado La Mort D’Adèle, e um tumblr chamado La Vine D’Adèle, criado por uma dupla hilária, que publica pequenos vídeos inspirados na obra de Kechiche.

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Essas críticas não estão aí para dizer que existe um “verdadeiro sexo lésbico”, nem para negar que nos filmes heterossexuais as cenas de sexo sejam realistas. Aliás, os filmes com cenas de sexo heterossexuais estão aí para mostrar que a maior parte deles também é sexista e que uma cena de prazer feminino é uma coisa um tanto quanto rara – mais rara ainda se for uma cena com uma mulher se masturbando (coisa que vemos aos montes nos filmes adolescente – principalmente os besteróis das décadas de 1980 e 1990 com nerds tarados tendo ejaculações precoces a cada par de seios que avistam).

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No caso de La Vie D’Adèle, o que tanto incomoda às lésbicas preocupadas com políticas de representação é essa visão sexista e heterossexual do diretor, a sua “câmera-pau”, como de forma bem-humorada classificou Bourcier. Enquanto espectadora lésbica, não consegui deixar de lado o mal-estar nas cenas em que a câmera de Kechiche mergulhava na bunda de Adèle deitada em sua cama usando calça de laycra, ou na sua boca semi-aberta quase em todas as cenas. Aliás, para quem não o viu na pré-estréia em São Paulo e no Rio de Janeiro, o filme é todo feito de planos fechados. Principalmente em Adèle. Principalmente em sua boca (que é sexy, não posso negar). O ponto-de-vista de Kechiche está ali, marcado, a todo instante: um diretor homem, heterossexual, filmando uma história sobre lésbicas. Não que eu deslegitime diretores homens heterossexuais que filmam histórias lésbicas, sou contra quando esse é o ponto-de-vista dominante.

Deixando de lado a quantidade de lésbicas diretoras de cinema (se alguém tiver essa estatística, por favor me enviar), a quantidade de mulheres diretoras é assustadora. Tão assustadora, que em fevereiro deste ano o site Business Week publicou uma reportagem intitulada Why women in Hollywood Can’t Get Film Financing [Por que, em Hollywood, mulheres não podem obter financiamento para filmes?]. Se poucas diretoras são mulheres, a cargo de quem fica a maior parte da representação da parca presença de personagenes mulheres no cinema, se comparada com homens?

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O desfecho de La Vie D’Adèle, na minha opinião, se deu no Festival de Cannes, nas imagens disseminadas pelos canas de TV, sites de entretenimento e notícias online. Nessas imagens podemos contemplar a presença heterossexista de Kechiche, sempre disposto nas fotografias do festival entre as duas atrizes, como se ele fosse aquele ator que surge ao final do pornô lésbico para trazer um pouco de sexo real aqueles longos minutos de “preliminares” entre elas. Em La Vie D’Adèle, o que mais me incomoda é isso: não consigo assistir apenas a um filme lésbico, ou a uma cena de sexo lésbica. A presença de Kechiche é tão forte em seus planos fechados nos glúteos e na boca aberta de Exarchopoulos que, por vezes, o que temos ali é um belo de um ménage à trois ente Seydoux, Kechiche e Exarchopoulos.

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2 comentários sobre “As lésbicas podem deixar de lado as políticas de representação? Sobre o filme “Azul é a Cor Mais Quente”, de Adbellatif Kechiche

  1. essas reações me deixam confusa. em relação aos espectadores: fui com duas amigas lésbicas que amaram o filme e a cena. saíram de lá afirmando “isso é sexo lésbico” e dizem ter sentido muito tesão. os planos fechados são sim invasivos.. mas o diretor tem essa escolha com a protagonista mulher lésbica, sem que isso indique um olhar heterormativo… aliás…quiça moralista a crítica ao tapinha.

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